Montanha, te quero além-mar

Madrugada de 27 de agosto de 2015
Bateram, pela última vez, setenta e um corações
Um caminhão escuro, escaldante, asfixiante

 

Quatro crianças suspiraram pela última vez
Nos braços de suas mães
O amor morreu sufocado num caminhão trancado
Em um país onde o ar fresco é tão apreciado

 

A Esperança foi a primeira a embarcar
Na rota de refúgio
Ultrapassando obstáculos humanamente inimagináveis
Entre terras e mares
Viajar de caminhão numa autovia num país seguro
Beira a definição de viagem de primeira classe para o paraíso

 

Autovia A4 da Áustria
Sem plaquinhas de boas-vindas
Setenta e um corações esperançosos perderam suas vidas

 

Na última saga pelo deserto da dignidade humana
Mulheres, crianças e homens suaram, choraram, calaram
A sede se alastrou nos tantos lagos de água potável
Copos cheios de vazios, corpos cheios de pavor

 

O ar há de se merecer
O corpo, desfalecer
Vida longa é para privilegiados
Bode expiatório, refugiados

 

Depois do noticiário trágico, acendem-se velas
Por compaixão consigo mesmas
E na noite de Natal, lotam-se capelas

 

E seguem defendendo leis que as protejam
De quem não querem salvar
Há tanta falta de ar, de amar, de se por no lugar
Montanha, te quero além-mar

Danielli Cavalcanti

P.S.: A foto é da porta da Ong maiz, em Linz, na Áustria, in memoriam a essas 71 vidas que, estando no mesmo território que nós, não puderam respirar o mesmo ar.

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