A última viagem de um menininho

O dia estava muito bonito e a mamãe escolheu a minha roupa mais bonita.
Eu não queria calçar os sapatos, esperneei.
Ela insistiu, dizendo que a viagem em busca de paz é muito perigosa.
Seu semblante tinha uma mistura de esperança com desespero.
Não sei dizer o que era mais forte.

E entramos naquele barco saindo da praia de Bodrum, no sul da Turquia.
A primeira estação seria a ilha grega de Kos.
Mas o barco afundou. E eu cheguei no fundo do mar.
Estava frio e escuro. Queria a minha mãe.
Cheguei primeiro à praia, fiquei esperando por ela lá.

Queria tirar meus sapatos para brincar na areia, mas
esperei primeiro pela mamãe.
Quando a senhora vem, mamãe?
Coloquei meu ouvido na areia para escutá-la.
Ela vai gritar com certeza o meu nome bem alto, até eu respondê-la.
Uma pessoa com asas nas costas me escutou e disse que me levaria até ela.

Mas por que o sol está tão triste?
Na praia ele geralmente sorri.
Por que a praia está tão vazia?
Acho que está todo mundo ainda debaixo d’agua.
Por que o céu tem lágrimas nas nuvens?
São tantas perguntas para tão pouco tempo de vida.

Minha mamãe ficará orgulhosa de mim, pois cheguei sozinho na praia.
Mamãe, a senhora tinha razão, a viagem foi muito perigosa.
Mas acalme-se, não temos mais nada a perder.
Estamos finalmente em paz!
E eu nem tirei o sapato!

 

#Livro Flor de Linz

Danielli Cavalcanti

Foto Bady qb

P.S.: Atualizado em 18. de outubro de 2017. Há três dias, o Papa inaugurou a estátua do menininho Aylan Kurdi.

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