Livro Flor de Linz – Prefácio

Prefácio

Flor de Linz, Café de uma migrante brasileira em Linz, na Áustria, é o palco de encontros, conversas, relatos e trocas entre as tantas brasileiras na cidade, os poucos brasileiros que vez por outra aparecem, alguns outros ou outras naturais do país e ainda outras personagens de outros cantos do mundo que estando de passagem por esta cidade à margem do Danúbio dão o ar de sua graça, como talvez escrevesse a narradora deste livro.

Flor de Linz é um espaço imaginado, um espaço que poderia ser. Um espaço inúmeras vezes planejado entre fantasias e desejos, um espaço que entremeia os sonhos de migrantes brasileiras em Linz. E, provavelmente, também em outras cidades onde personagens com passados e presentes semelhantes se encontrem. No Flor de Linz há tudo aquilo que nos falta na diáspora: tapioca quentinha, cafezinho, feijão e todos outros quitutes nostalgicamente celebrados. Mas é também território de escuta, território de sonhos, de lágrimas, de planos, de aconchego, de solidariedade e de alegria. E embora saudade e nostalgia, samba e brazil kitsch tenham ali lugar reservado e garantido, o Café subverte as fronteiras do exótico e logra conjugar saudade com resistência.

Flor de Linz é um espaço onde posturas políticas são claramente marcadas. Nas conversas entre a dona do Café, ouvinte e conselheira, e suas visitantes brasileiras, todas trazendo nomes de flores e experiências de espinho, o repúdio ao racismo e ao sexismo vivenciados no cotidiano das personagens, manifesta-se, principalmente, como prática de resistência e solidariedade.

Como na canção de Djavan, a qual o nome do Café nos lembra, muitas das conversas no Flor de Linz nos contam estórias de amor, de separação e de dor. Mas o contar atravessa e desmonta tabus, tematiza o mito da “migração por amor”, que no falar de muitas das personagens retratadas no livro diferenciaria as brasileiras das outras migrantes, e desmascara o teor racista contido na comparação. Sem lançar mão de dicção panfletária ou moralizante a narradora, entre cafezinhos e brasileiríssimos strudeln, ouve, aprende, troca, se solidariza, e acima de tudo, se posiciona quando deparada com discursos e práticas racistas.

Flor de Linz precisa ser traduzido para o alemão, pensei logo após ter lido suas primeiras páginas. Tarefa desafiadora! Como traduzir seu humor, seus trocadilhos geniais, suas metáforas extremamente poéticas?

Flor de Linz, diferentemente do Café, é um livro que, rompendo a esfera do que poderia ser, transformou-se em realidade. Uma versão singular no contexto austríaco de literatura produzida por migrantes brasileiras/os. Uma posição diferenciada do corriqueiro: Seus recados poéticos cortam como faca afiada e desconcertam práticas e falas racistas. Mais do que uma declaração de carinho à cidade de Linz, Flor de Linz é uma declaração do direito das e dos migrantes a intrometer-se enquanto protagonistas no cotidiano das cidades do velho mundo por onde passamos tempos de nossas vidas neste viver globalizado. Uma declaração de direito à felicidade.

Rubia Salgado, Linz, 25.02.2016

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