E o idioma? ah, você vai aprendê-lo, cuide-se e cuidará dele devagarinho!

O aprendizado do idioma do país residente deveria ocorrer de forma facilitada, pois estamos envolvidas no seu contexto e o experimentamos em todos os sentidos, não é? Bem, cada pessoa tem uma vivência e mesmo em situações parecidas, nós reagimos muito diferente. Há quem aprenda mais rapidamente que a média do grupo, há quem aprenda mais devagar, há quem nunca aprenda. E dentre essas três categorias, há outras tantas desminhunçadas sobre o que é comunicar-se em uma segunda língua.

A pressão em aprender o idioma é exercida por todos os lados: a própria pessoa, a família, as amigas, a escola, a sociedade e a política migratória cada vez mais restritiva e discriminatória. Falar o idioma residente, o mais rápido possível, parece virar sinônimo da capacidade intelectual e do esforço individual atrelados ao sucesso das políticas de integração. Tudo bem que por osmose fica difícil aprender, há de ter um esforço intelectual, obviamente. Quanto às políticas integrativas, podemos questionar também sua eficiência.

De qualquer forma, cada pessoa tem um histórico de aprendizado, seja no ambiente escolar ou no cotidiano da vida, e isto reflete no seu aprendizado posterior. Há quem tenha crianças que demandam uma atenção mais especial; algumas pessoas trabalham em casa e fora e não têm energia para se concentrar; algumas vêm de regiões com conflito bélico, outras perderam suas crianças no caminho em busca de refúgio, sem falar nas que estão aprendendo a escrever em alfabeto romano (tente escrever em árabe, por exemplo) e nas que ainda estão sendo alfabetizadas neste segundo idioma. Além das pessoas que têm famílias muito exigentes ou que são por demais exigentes consigo mesmas, ainda as que estão em relacionamento abusivos e outras com problemas que nem consegui imaginar aqui.

Enfim, o que eu quero dizer é: não compare sua situação de aprendizado com a de outra pessoa!

Você está indo bem nas aulas, isto é maravilhoso, mantenha o foco e bola pra frente.

Você não está conseguindo acompanhar as aulas, não se martirize, faça até onde puder.

Se o aprendizado, no momento, mais causa sofrimento que prazer, dê um tempo, organize as ideias, a casa, a vida, depois volte. Se você puder continuar indo às aulas, assim o faça, o contato social é importante, mas sem pressão em ter que aprender e sem comparações. Converse com a professora, por exemplo, sobre estar presente na aula, mas de forma menos ativa. Se você não puder ir às aulas, retome-as em um outro momento.

Claro que eu acho importantíssimo você aprender o idioma local, pois essa pode ser uma forma de participação socio política mais ampla, um ato de resistência.

Mas acredito que permitir-se passar por um momento difícil de forma respeitosa consigo mesma é mais importante.

E o idioma? Ah, você vai aprendê-lo, cuide-se e cuidará dele devagarinho. ❤

 

Danielli Cavalcanti

3 comments

  1. Oi Danielli,
    Super de acordo com o seu texto.
    No começo de morar em Madri eu não entendia a metade do que falavam, e um belo dia decidi relaxar, e acreditar que um dia entenderia tudo. Assim, ia conversando com as pessoas e captando pouco a pouco as expressões, ideias, formas de comunicar daqui. Deu muito certo. O que me ajudou foi a paciência, entender que esta era uma outra língua (mesmos endo parecida com o português), e me cobrar menos. Para mim a perfeição existe, e está também nas coisas que chamamos de imperfeitas.
    Obrigada pelo post!
    Um abraço!

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    • Obrigada também pelo comentário, Cristina. Bem disseste. Paciência, menos cobranca! É tanta mudanca de uma vez só: idioma, cultura, tempo, perspectiva de vida… nossa! Claro que é um crescimento pessoal muito valioso poder passar por essa experiência, mas pode ser bem doloroso também. Que bom que tua estratégia deu certo! 🙂 Bj. Nos lemos! ❤

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