Falar a língua de herança ainda é um privilégio.

No dia 5 de maio, comemora-se o Dia da Língua Portuguesa, idioma nativo de 260 milhões de pessoas. Este ano, eu tive a honra e a alegria de participar de dois evento em sua homenagem, lá em Viena.

Pelo início da tarde, estive na aula de Português como Língua de Herança (POLH), da professora Daniella Ringhofer, nas dependências do Ginásio Acadêmico da Bethovenplatz, lá em Viena, na Áustria. Esse da foto do post.

Para além da aquisição informal da língua de herança, através do convívio familiar e comunitário, há nos países da União Europeia a possibilidade de se oferecer, gratuitamente, o aprendizado formal, abrangendo as quatro habilidades comunicativas: leitura, escrita, compreensão auditiva e comunicação oral. As aulas são aos sábados ou em horários diferentes do escolar. O oferecimento do curso gratuito pela prefeitura depende da obtenção de uma certa quantidade de alunos e alunas.

Foi muito emocionante participar de uma aula de POLH, ver e ouvir aquelas filhas e filhos da migração lendo e analisando os poemas que fiz para a Língua Portuguesa. (Para lê-los clique aqui, aqui e aqui).

Falei um pouco do meu livro de poesias diaspóricas “Quando eu outono, tu primaveras“. Foi muito interessante ouvir as interpretações dessas crianças sobre o título do livro. A professora ainda fez uma brincadeira, na qual as alunas/os conjugaram o verbo “outonar” e “primaverar”. Ficou muito bonitinho e conjugaram bem direitinho, heim!

Ao final, as crianças fizeram poesias acrósticas. Daniella conduz a aula de forma muito didática e tem uma relação bem carinhosa com a turma. Fiquei muito feliz em poder ter participado de sua aula!Tiramos fotos com a turminha, mas como não combinamos com as mães e pais, não as postarei aqui.

Apresentei ainda o meu livro Sopa de Sapo, falamos sobre as relações interpessoais, xenofobia, consumo, língua de herança e língua do país residente/país nativo. Afinal, idiomas nunca estão em concorrência, senão sempre em apetência, seja pelo histórico familiar, pelo contexto geográfico ou mesmo pela fome de conquistar o mundo!

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O Sapo Sapeka ficou todo orgulhoso posando o livrinho na espreguiçadeira de madeira em frente ao Ginásio das aulas de POLH, em Viena.

Há mães e pais, residentes no exterior, que não falam com suas crianças em seu idioma natal. Algumas por falta de apoio familiar e/ou por não suportarem os preconceitos da comunidade local, preferindo assim evitar conflitos. Mas preconceito não é para ser suportado, senão combatido. E uma forma de combatê-lo é, exatamente, não se calando do seu idioma materno/paterno. Falei um pouquinho sobre isso aqui.

Outras mães e pais não falam por sugestão de pedagogas e professoras despreparadas para lidar com crianças bilíngues ou filhas de casais biculturais.

Sem falar também naquelas mães e pais que não convivem diariamente com suas crianças, e sendo assim, não têm a oportunidade de interagir com elas em português. Afinal de contas, o tempo que têm juntas é precioso demais e precisam se fazer entender para além da linguagem corporal e a troca de olhares. Há sempre coisas que precisam ser ditas, principalmente, se tratando de sentimentos e pouco tempo.

Portanto, falar a língua de herança com nossas crianças é ainda um privilégio para muitas mães e pais residentes no exterior.

Na verdade, é um direito da criança aprender um instrumento fundamental para sua identidade cultural e  história de uma parte de seus familiares.

Assim, sendo mãe migrante, fiquei muito emocionada em estar em sala de aula com essas jovens. A ideia para participar da aula, surgiu de uma amiga, cuja filha com três anos melou minha mesa toda de biscoito (exagero, vai!). Aí fui mãe e a minha filha melou a mesa, o chão, minha roupa...

Mãe e filha estavam lá na aula do Dia da Língua Portuguesa. A avó foi ao meu casamento. Três gerações da minha história. A vida e sua urgência de ser!

Enquanto, fazíamos o poema acróstico, aprendi com a filha da minha amiga que nós falamos a palavra muito com um ”n”, ou seja, muinto!

Faça o teste: eu gosto muito de sorvete! Você fala muinto? Eu falo muinto “muinto”! 🙂

Fico encantada com a sensibilidade linguística que uma criança bilíngue tem, assim como sua facilidade em explicar algo em diferentes perspectivas.

Mesmo com tantas vantagens em se falar a Língua de Herança, espero que quem fale português com suas crianças, não julgue quem não o faça. Mas apoie, incentive de forma empática a mãe ou o pai, proporcione um ambiente para a criança aprender. Convide a criança para dormir na sua casa, falando apenas em português com ela. Vi isto na casa da minha amiga. Da noite pro dia, houve uma diferença na relação dessa criança com o idioma. Impressionante. Nunca é tarde!

Quem sabe um dia, teremos as Línguas de Herança não mais como um privilégio, mas como um direito de toda criança e como um presente consciente que sua família possa lhe oferecer. Através de um idioma abrem-se as portas de um mundo!

Danielli Cavalcanti

Foto: Ginásio acadêmico, Bethovenplatz 1, Viena Áustria.

P.S.: Se você quiser adquirir um exemplar do “Quando eu outono, tu primaveras”, do “Flor de Linz” ou do infantil “Sopa de Sapo”, por gentileza, contacte-me: jardimmigrante@hotmail.com

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