Coletânea “Com o pé na terra”

Com muita alegria e emoção, eu vos apresento a coletânea “Com o pé na terra”. Tenho a honra de participar através do conto “Casa de farinha”, inspirado nos meus fins de semana no sítio das freiras, no Canta Galo, localizado entre os municípios de Esperança e Lagoa de Roça, no interior da Paraíba.

Esta é uma coletânea de contos de 19 autoras brasileiras sobre temas roceiros de várias regiões brasileiras. Está tudo tão lindo e delicado, enche os olhos e o coração de emoção.

Casa da farinha Danielli Cavalcanti

Agradeço à editora Caleidoscópio Edições, Patrícia Vasconcellos, pelo convite, à Katia Gilaberte pela organização e à Roberta Asse pelas ilustrações tão lindas.

 

Aqui deixo um trechinho do meu conto:

Casa da farinha

Já reparaste que, quando chove, a terra saudável sorri? Perguntou-me dona Luzia, a senhora que lia pensamentos no sítio Canta Galo. Quando eu era criança, este era meu refúgio nos fins de semana. Está localizado entre as cidades de Esperança e Lagoa de Roça, no interior da Paraíba.

Na entrada da casa, de agosto a fevereiro, o chão ficava coberto pelo tapete rosa das flores de jambeiro. Da porteira de entrada do sítio, sentíamos o cheiro agridoce de jambo. No sítio havia também um riacho que passava por uma cachoeira baixa. No inverno, formava-se uma piscina pequena de água clara e doce, e o rio seguia seu destino de doar-se a outras vidas.

No penúltimo fim de semana de agosto, minhas três amigas e eu fomos para o sítio. Nós tínhamos um trabalho de ciências para apresentar na escola, mas não sabíamos sobre qual assunto falar.

Como o céu estava muito bonito e o sol bem alegre, decidimos brincar na cachoeira. De repente, apareceu Dona Luzia com aquele avental branco reluzente de tanta goma. Tivemos medo, porque já sabíamos de sua fama de ler pensamentos. Imagina estar perto de alguém assim? Em alguns casos, isto poderia facilitar bastante as nossas vidas, mas, em outros, isto se tornava bem assustador.

– Oi meninas, já sabem o que vão apresentar no trabalho da escola? Perguntou dona Luzia, assim com uma cara de quem já sabia de tudo, mas nós não havíamos dito nada a ela.

– Ainda não, mas já que estamos na cachoeira, que tal falarmos sobre a água? Respondi, assim meio de supetão. Minha amiga logo retrucou, porque um outro grupo já havia escolhido esse tema, só o nosso que ainda não tinha escolhido tema nenhum.

– Já reparaste que, quando chove, a terra saudável sorri? Perguntou-me dona Luzia. E continuou: água enverdece o pasto, água é passagem, água é vida. Minha amiga a interrompeu, falando que, quando chove, na cidade, parece que a terra chora, porque alaga tudo, paralisa tudo.

Danielli Cavalcanti

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