O silenciamento da nossa língua materna não nos protege. (Com a licença político poética de Audre Lorde)

Uma das disciplinas deste semestre, no curso de docência para o ensino fundamental, chama-se “multilinguismo na escola (flersprogethed i skolen)”. Tema interessantíssimo que me acompanha deste muito antes de eu ser mãe.

Eu me lembro de várias discussões calorosas, nos cursos e rodas de conversas que participei na Verein maiz, sobre falar o nosso idioma materno, idioma primeiro, idioma do coração, idioma de herança, etc.

Houve relatos de mulheres que optaram por não falar com suas crianças em seu primeiro idioma, porque sofreram discriminação no Strassenbahn, na rua, no supermercado, etc.

Eu nunca cogitei a possibilidade de não falar português com a minha filha, embora eu goste muito do alemão e, apesar de, ter passado por situações constrangedoras, ou seja, tentativas de silenciamento. Este último já seria um motivo suficiente para eu falar português!

Mas imagina só, eu chamar a minha filha de “meu coraçãozinho” em alemão: mein kleines Herz, Herzilein ou Herzchen.
A primeira coisa que penso é: Herz é um substantivo neutro (das Herz), está no singular e a frase está no nominativo. 😛

Falando essa frase, em alemão ou noutro idioma, eu a leio na cabeça, faço análise morfossintática e chuto pro gol, ou não. 😉
Falando essa frase em português, eu a sinto no meu coração.
Portanto, a decisão em falar em português com minha filha ou no idioma do país residente é uma questão pragmática. Mas não só, é sobretudo uma decisão política.

Atualmente, os benefícios do multilinguismo estão mais difundidos, estudados e aceitos (pode-se começar por: Disciplina: Fundamentos linguísticos do bilinguismo e multiplinguimos, de Indaiá de S. Bassani, Palavras herdadas de Sonia Almeida e Andrea Menescal, Português como Língua de Herança. Discursos e percursos, de Katia de Abreu Chulata).

Lá na Áustria, a palavra Mehrsprachigkeit virou moda nos últimos anos, apesar do termo multilinguismo já ser debatido bem antes e praticado, possivelmente, desde sempre. Mas eis que o tema está também na política da União Europeia, portanto, mais cedo ou mais tarde será, se já não for, tema disseminado em todo lugar. Que assim o seja e contribua para uma sociedade com mais respeito às diversidades.

Há 8 anos, quando minha filha foi para a creche, algumas pedagogas queriam que eu falasse alemão com ela. A sugestão entrou por um ouvido e saiu pelo outro, claro. Há coisas que não se discutem, apenas deixam-se ir.

Também por essa reflexão, sobre o papel do meu idioma primeiro na construção da identidade da minha filha, surgiu em mim a necessidade de abordar uma história, que eu contava pra minha filha, sob o aspecto da valorização do multilinguismo, das diferenças. O livro se chama Sopa de Sapo, se quiser pode ler mais sobre ele aqui, aqui e um vídeo resenha lindo do Diário de Aurora aqui.

Mas voltando ao post…

É interessante observar que isto não foi sugerido ao meu esposo, apesar de ele falar dinamarquês com a filha. Alguns idiomas têm mais valor no imaginário coletivo que outros. São as formas sutís do racismo.

Quando viemos para a Dina, eu não falava nada de dinamarquês. Uma pedagoga sugeriu que eu aprendesse dinamarquês falando com a minha filha.

Por que alguém me sugere abdicar de falar no meu idioma mais afetivo com a minha filha para ceder a urgência em “aprender” o idioma do país residente?
Muitas respostas.

Parafraseando Audre Lorde, meu silêncio em português não me protege. Por isso também, falo em português com minha filha sempre.

Apenas se houver alguém conosco, por exemplo, uma amiguinha da minha filha,  outra mãe, que não o entenda, em consideração a esta pessoa, eu falo no idioma comum  às três. Mas em quaisquer lugares públicos ou não, sempre falo português. Já houve destratos comigo num ônibus por causa disso, já houve quem sugerisse à minha filha falar comigo em dinamarquês, já houve quem me acusasse a não querer me integrar no país residente. A esta última respondi que talvez nossos conceitos sobre integração sejam divergentes, mas que ainda assim poderemos sobreviver a isto. Viva a democracia!

Seria “integrar-se” o fazer parte ativamente de uma sociedade, contribuindo crítica e positivamente para seu desenvolvimento socio, econômico e cultural? Se sim, sou toda integradinha.

Mas se o significado for moldar-se a um grupo de forma subserviente, bajuladora, permissiva, a descolorir meu arco-íris, visando ser aceita: não, definitivamente, não tenho talento para o cinza.

Então, falar português com minha filha é também um ato político, pois não se faz necessário calar-se em um idioma para dar voz a outro. Mas avizinhar (integrar?) diferentes vozes para perceber, viver, acarinhar o mundo de diferentes maneiras. 

Devagarinho, minha filha vai também escrevendo e lendo neste idioma que vem do umbigo e sentindo que todas as línguas são importantes, porque dão vozes a alguém em algum lugar!

No mais paciência, resistência e insistência, pois como disse Mario Wandruzka , “o multilinguismo não é uma condição, mas um processo”. (Die Mehrsprachigkeit des Menschen, 1979).

Quem quiser ler algumas reflexões minhas sobre o tema:

O poema A mamãe fala português:
https://jardimmigrante.wordpress.com/…/a-mamae-fala-portug…/

Bilinguismo nao é nenhuma genialidade, primeiramente, fora dúvida:
https://jardimmigrante.wordpress.com/…/bilinguismo-nao-e-n…/

Você nao fala português com sua filha/filho? Primeiramente, fora culpa
https://jardimmigrante.wordpress.com/…/voce-nao-fala-portu…/

A decisão de em qual idioma falar com nossas crianças nem sempre é de livre vontade. Este texto é para as pessoas que não puderam escolher em que idioma falar. E, principalmente, para as que tiveram que silenciar seu idioma materno:
Sinto muito, mas eu nao falo português com a minha filha/filho:
https://jardimmigrante.wordpress.com/…/sinto-muito-eu-nao-…/

Português, tu és minha língua porto:
https://jardimmigrante.wordpress.com/…/20/lingua-de-heranca/

Português, és o som do meu viver:
https://jardimmigrante.wordpress.com/2018/04/24/es-o-som-do-meu-viver/ 

 

Danielli Cavalcanti

Foto: Sai De Silva on Unsplash

 

 

 

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