Licor de ovo

Tove Ditlevsen, escritora dinamarquesa, escreveu uma história chamada gemada (æggesnaps). No curso de idiomas, tivemos um exercício que seria continuar essa história. Aqui está a minha versão. Chama-se Licor de ovo.

Licor de ovo

A criança fez uma gemada, como sua mãe a sugeriu. Então, ela se sentou à mesa e mexeu a gemada com uma colher, escutando o barulho da colher encostando a borda do copo. E mexeu mais e mais devagar, até conseguir movimentar apenas o líquido sem encostar a colher no copo. Com isso, ela foi-se acalmando, até não escutar mais nada.

Mas ela não conseguiu tomar aquela mistura de ovo. Antes ela adorava, mas agora não pode ver nem sentir o cheiro daquilo, pois logo enjôa.

Mais tarde ela fez o almoço, depois o jantar, e passou um longo tempo olhando pela janela da cozinha, na esperança de que sua mãe chegaria logo. O dia para ela começava à noite, quando a mae chegava do trabalho e ela podia, finalmente, ser criança.

A comiga esfriou e a criança muito cansada adormeceu. Em sonho, pensou:

– mais um dia que não vejo a minha mãe. Será que ela ainda tem as bochechas avermelhadas e os olhos cansados?

E reafirmou, a melhor parte do dia é quando chega a noite. Ela gosta de dormir, porque nos sonhos há o acalento da presença de sua mãe.

A mãe chegou muito tarde em casa, viu a criança dormindo com a sua coberta. Tentou até um sorriso no canto da boca, mas não havia tempo para isto. Ela estava exausta, apenas foi ao banheiro retirar a maquiagem, antes de cair na cama. Amanhã teria ela novamente um longo dia.

– mais un dia que não vejo o brilho dos olhos da minha filha. Será que ela ainda tem a bochecha rechonchuda e aqueles olhos curiosos? Pensou a mãe e não conseguiu dormir.

Quando o dia amanheceu, a mãe já não estava mais em casa. A criança se levantou, procurou pela mãe e passou o dia todo triste, porque não foi capaz de esperar pela mae à noite e por nao poder desejar-lhe um bom dia.

A mãe não foi almoçar em casa novamente. Ela estava muito atarefada, pois não há cerveja suficiente no mundo para tantos homens sedentos. Ela ficou com a consciência pesada por ter ido trabalhar sem dar um tchau e desejar um bom dia para sua criança.

As férias escolares chegaram, a criança e a mãe se viam cada vez menos.

Numa noite, a mãe chegou em casa muito cansada, foi para a cozinha e viu uma perlagonium fora do vaso. Ela ficou brava. Mas não quis acordar a criança, pois não tinha energia para brigar. Ela precisava apenas de uns minutos sozinha em silêncio.

Tomou água, pegou um vaso e colocou a flor dentro. Então, ela viu uma caneta em cima de um papel. E o leu:

Mãe,

desculpa, eu estava hoje novamente muito cansada, não consegui lhe esperar.

Depois de amanhã é meu aniversário. Eu sei que a senhora não vai se esquecer disto. Eu sei também que a senhora trabalha muito para comprar comida, roupa e brinquedos para mim.

Mas mãe, eu não preciso de nada, viu?

Nos últimos tempos, estou tentando comer cada vez menos também. No primeiro dia foi bem difícil, mas eu me acostumei a comer só uma vez por dia, às vezes consigo até passar o dia todo sem comer. Já não é tão difícil assim. Como a senhora diz, temos que tentar tudo. Eu não faço mais gemadas. Então,a senhora não precisa mais comprar ovos. Eu não brinco mais lá fora. Assim, minhas roupas não ficam tão sujas e minha boneca não ficará tão acabadinha, como a outra.

Tá vendo, mãe? A senhora não precisa trabalhar tanto. Quem sabe até conseguiremos passar meu aniversário juntas! Espero que faça sol. Sentir-se aquecida é o melhor presente.

Eu também não preciso de bolo, só tem açúcar e não é nada saudável, né mãe?

A senhora poderia escrever seu nome neste papel? Assim, eu posso saber que a senhora o leu. Eu acho que a senhora não viu minhas outras cartas, por isto coloquei uma flor em cima da mesa.

Tchau. A senhora pode ter um bom dia, mãe?

Sua filha

 

A mãe olhou o cesto de lixo e lá dentro havia alguns papeis amassados. Ela retirou os papeis e os colocou em cima da mesa. Eram todos cartinhas de sua criança.

Ela foi ao quarto, a criança dormia descoberta. Ela a cobriu com cuidado para nao acordá-la. Voltou para a cozinha, fez uma gemada e começou a ler as cartinhas. Depois adormeceu lá mesmo.

Pela manhã, a mãe se levantou, a gemada ainda estava em cima da mesa. Ela tomou um gole, estava insuportável, colocou entao vodka, bebeu de uma vez e foi trabalhar.

Quando chegou em casa, a criança já dormia e não havia janta pronta.

Ela fez uma gemada e colocou vodka dentro. Ela gostou de tomar aquilo, porque tinha cheiro de sua infância e a aquecia.

Procurou ainda alguma notícia em cima da mesa, mas não havia nada e foi dormir.

No outro dia, a mãe se levantou cheia de energia. Era o aniversário da criança e ela quis acordá-la. E começou cantando timidamente: ”parabéns pra você…” Mas não houve reação. Ela retirou a coberta da criança, ela estava fria. Então, ela a cobriu novamente, deitou-se na cama e a abraçou. Ela lembrou do dia em que a criança nascera. Foi também um dia frio, mas ela se sentiu aquecida como nunca antes. Neste dia, a mãe não foi trabalhar.

Ela ficou o dia todo na cama com sua filha fria, azul e já grandinha, mas ainda assim sua pequena criança.

E aquele dia, além de ser o dia de seus nascimentos, como filha e como mãe, fora também o de sua despedida.

 

Danielli Cavalcanti

Foto: Joanna Kosinska

P.S.: Se você quiser ler este texto em dinamarquês, clique aqui!

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