A fruteira

A toalha de crochê, herdada da avó, vestia a mesa, testemunha de tantas mudanças e palco dos caprichos da fruteira. Essa delirava de orgulho, por seu apelo decorativo valer mais que o de utilidade, mal cabia-se meia dúzia de laranjas lá e a fruteira jogáva-las ao chão. Ela não tinha ideia de que a fruta que mais detestava, refletia a sua própria deterioração.

As bananas ficavam na geladeira, do contrário, não durariam nem dois dias naquela cozinha.

Toda manhã, o café da menina era vitamina de banana.

Toda noite, em frente à TV com sua mãe, ela descascava uma bacia de laranja.

Quando a menina adoecia, a fruteira era a única que ficava feliz, pois, finalmente, desfrutava de outras companhias.

Aos 10 anos, a menina teve catapora, a mãe achou por bem comprar umas frutas diferentes, na tentativa de despertar o interesse apetecível da filha, e trouxe uma maçã meio amaciada e outra azedinha. Esta última era a rainha da feira, importada da Argentina, disse a vendedora num papo de dar água na boca e de esvaziar o bolso.

A menina não tomou gosto por nenhuma das duas, mas a mãe crente que esse desgosto era fastio, sempre as comprava, quando a menina adoecia. Para o desespero gustativo da filha.

A menina virou mulher, foi morar num país, onde havia mais maçã que laranja, e experimentou outras sensações desse fruto proibido. Percebeu que seu medo de gostar de maçãs era culpa pelo sacrifício da mãe em comprá-las.

Deu-se outra chance, o strudel de maçã tornou-se uma das suas sobremesas preferidas e bolo de maçã com canela perfuma sua casa no Natal.

No seu país residente, a maioria dos muros das casas são bem baixinhos e o jardim, exibindo sua plenitude verdística, intima a apreciá-lo. Em muitos quintais, há um pé de maçã e/ou um mastro. A mulher migrante gosta de observar as macieiras viverem suas estações, enquanto ignora o mastro delirando de orgulho, por seu apelo decorativo ser a seu único objetivo.

A fruteira da casa de sua mãe não sabe ela que fim levou. Sente falta de descascar bacias de laranja, mas saber que pode saborear sem culpa maçãs, abre-lhe o apetite para outras degustações.

E a mãe, que só quer ver a filha alimentando-se, saudavelmente, do mundo, fica feliz com a fome .

 

Danielli Cavalcanti

 

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s