Sinto muito, mas eu não falo português!

A decisão de em qual idioma falar com nossas crianças nem sempre é de livre vontade. Este texto é para as pessoas que não puderam escolher em que idioma falar. E, principalmente, para as que tiveram que silenciar seu idioma materno.

Em alguns casos, a condição de residente em outro país pode trazer à tona a questão do preconceito linguístico. Por exemplo, pelo desinteresse do companheiro/companheira na participação deste segundo idioma no lar. Em casos mais drásticos, proibe-se até de falar, escutar, assistir algo em português dentro de casa! O que é crudelíssimo em todos os aspectos. É uma violência ser obrigada a silenciar-se no idioma cujo aprendizado ocorreu, primeiramente, através dos sentimentos e sensações. Isto é silenciar também a si mesma. O tema de relacionamento abusivo deve ser tratado com mais cuidado e atenção. Isto foge a temática do post, apesar dos assuntos poderem estar interligados.

Ainda há a ignorância de alguns parentes que insistem que o aprendizado de dois idiomas, simultaneamente, pode confundir a cabeça da criança! Sim, às vezes, o preconceito linguístico é bem sutil e transvestido de entendimento e benefício para a criança.

Ivian Destro Boruchowski e Gláucia Silva abordam no livro Como manter e desenvolver o português como língua de herança: sugestões para quem mora fora do Brasil, capítulo Capítulo 3 -Mitos sobre o bilinguismo infantil, que:

“As pesquisas científicas não confirmam isso. Consequentemente,
não há relação de atraso no desenvolvimento linguístico devido
ao fato de uma criança ser bilíngue. Pelo contrário, as pesquisas
mais atuais indicam que pessoas que desenvolvem bem suas
habilidades em duas línguas, com o passar do tempo, têm maior
facilidade em desempenhar certas tarefas. Como por exemplo, ter
maior consciência sobre a estrutura das línguas e ter maior rapidez
em situações que envolvam a capacidade de resolver problemas
(Bialystock, 2007).”

Lá embaixo deixo o link para baixar o livro escrito pelas professoras Ivian Destro Boruchowski e Ana Lúcia Lico.

O preconceito linguístico pode também vir da própria pessoa que prefere não falar com sua criança no seu idioma materno, por vergonha ou medo que suas crianças sejam rotuladas de estrangeiras e sofram preconceitos, ou por valorizar mais o idioma local em detrimento do idioma português. Aqui só a própria pessoa pode exorcizar seus fantasmas.

Há ainda a falta de tempo e paciência. Há também quem não tenha tido experiência escolar suficiente e não se sinta segura em ensinar português e prefira que a criança aprenda o idioma escolar. Há quem esteja há tantos anos no país residente que prefira pensar, falar no idioma local.

Infelizmente, há também quem não teve opção, mas foi obrigada a falar a língua do país residente com sua criança. Lá em cima, falei da proibição de se falar português em casa. Outro exemplo, é quando há divórcio e a criança não mora com a parte familiar falante do português. Assim, encontrar-se, quinzenalmente, com as filhas e filhos e continuar se comunicando em português é muito difícil. Principalmente, quando as crianças ainda não dominam o idioma.

Enfim, há e sempre haverá motivos para abdicar ou escolher falar português. Cada pessoa sabe de seus limites e desafios. O julgamento é desnecessário e não leva ninguém a lugar nenhum.

Eu levanto a bandeira do “eu falo português”. Mas estou falando a partir da minha realidade. Não sou uma mãe melhor, porque falo português. Acredito que posso ser uma mãe melhor hoje que fui ontem, quando estou em paz com minhas escolhas.

Ensinar o nosso primeiro idioma às nossas crianças deve ser um prazer, um presente e não um fardo, uma obrigação. Independente do idioma que queremos ou podemos falar com nossas crianças, o mais importante é estarmos presentes da forma como pudermos.

Se a ponte para um relacionamento mais próximo entre nós e nossas crianças for um idioma estrangeiro, que este idioma não tenha mais posto de estrangeiro nas nossas vidas.

Falemos com nossas crianças no idioma delas.

Falemos, carinhosamente, de nós, delas e com elas.

Falemos de nossos desejos de felicidade, do nosso respeito por suas escolhas, de quão orgulhosas somos de tê-las nas nossas vidas, do quanto elas aquecem os nossos corações!

Você sente muito por não falar português com sua criança?

Fale muito do que sente muito por ela, fale da infinitude do seu amor!

Isto é o mais importante, seja em que idioma for.

Danielli Cavalcanti

P.S.:

Foto: London Scout

Você não fala português com sua filha ou filho? Primeiramente, fora, culpa! E clique aqui!

Bilinguismo não é nenhuma genialidade! Primeiramente, fora, dúvida! E clique aqui!

Este texto aqui, do blog A mente maravilhosa, pode ser inspirador: Frases que devem ser ditas a suas filhas e filhos.

Se você gostou deste post e quiser ler alguns algumas histórias sobre a experiência de se viver sob o manto ou entre a cerca da migração, os dois primeiros capítulos do meu livro, Flor de Linz, estão disponíveis aqui!  O livro está na segunda edição. Desta vez, ela é uma publicação bilíngue, em português e alemão. Para infos: livroflordelinz@gmail.com

O livro que falo lá em cima é este aqui:  Chama-se Como manter e desenvolver o português como língua de herança: sugestões para quem mora fora do Brasil, e foi escrito pelas professoras Ivian Destro Boruchowski e Ana Lúcia Lico.

10 comments

  1. […] A decisão de em qual idioma falar com nossas crianças nem sempre é de livre vontade. Este texto é para as pessoas que não puderam escolher em que idioma falar. E, principalmente, para as que tiveram que silenciar seu idioma materno: Sinto muito, mas eu nao falo português com a minha filha/filho: https://jardimmigrante.wordpress.com/…/sinto-muito-eu-nao-…/ […]

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  2. Eu também levanto a bandeira ” Eu falo português ”
    Moro na Alemanha há 11 anos e tenho 2 filhos um de 8 e o outro de 5 anos . Quando estava grávida 🤰 a família do meu marido sempre diziam vc só vai falar alemão c ele , pois é bom 😊 e vc tbm melhor seu alemão. Eu sempre dizia kkk o filho e meu e eu tenho uma família inteira q só fala português como vou visitar minha família e ter uma criança muda ??? Meu marido não fala português mas entende e acha super 👍 legal que nossos filhos falam ele sempre diz : ” além dos nossos filhos falarem português é muito interessante quando eles conversam com vc e ninguém entende ” é uma formar secreta de nos comunicarmos só nossa .. . Na verdade eu de tanto falar português c eles , adquiriram a parte automaticamente esta pessoa só fala português e está só alemão . Eles não tem problema nenhum c os 2 idiomas .. Meu sogro e árabe e alemão e não ensinou p os filhos a falarem árabe , hj meu marido não tem vontade de visitar a família no Egito.. Meus filhos ligam e visitam o Brasil sempre . Amam falar a família e chamam Mainha e Painho c dialeto baiano..

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    • Ai Elba, falando baiano aí nao há quem resista! Adooooro o sotaque! Amo a Bahia! <3. Realmente, falar o idioma da família "de longe" torna os lacos afetivos bem mais fortes. É difícil para algumas famílias, mas quem tem a oportunidade de ensinar português a suas criancas, elas só têm a ganhar com isto. Bj.

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  3. Acho muita ignorância quando se pode falar abertamente outro idioma com os filhos e essa oportunidade e retirada por da um pouco mas de trabalho … em um mundo tão globalizado, quanto mas idiomas nossos filhos souberem melhor pra aumentar seus leques de oportunidades.

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    • Oi Adri, como diz o ditado “cada cabeca um mundo” É tao mais fácil aprender um idioma assim “meio que brincando”, né? Mas há vários fatores que podem interferir na opcao de se falar ou nao português com a cria. Falei noutro comentário no Facebook, acho que o importante é estar em paz com nossas escolhas. Obrigada por vir aqui e comentar!

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  4. Danielli…
    EU também levanto a bandeirante do “eu falo português”😊
    Moro na Espanha há 8 anos, soy casada com espanhol e te los dois filhos (6 e 7 anos).
    Antes me achava estrangulador por estar falando com meus filhos em português, pois pensava: se moramos na Espanha e nāo temos intençāo alguma de voltar a morar no Brasil (até o momento), porque nāo me comunicar com eles apenas no idioma deles…o espanhol.??
    Quando conhecí meu marido, nosso primeiro encontro foi no Brasil, e como eu ñ tinha a mínima noçāo do castelhano (ele menos ainda do português), eu sempre falava con ele em português, e assim, até hoje.
    As crianças nasceram e eu continuei falando meu idioma materno com eles, e hoje eles falam e entendem perfeitamente, apesar de que com o pai falar em Catalán (dialeto local), e com os amigos, falam o castelhano.
    Resumindo: Quando ligo para minha familia no Brasil eles se comunicam com todos e se entendem perfeitamente.
    Sinto-me feliz com isso, pois apesar da distancia, eles têm uma ligaçāo muito forte com a familia brasileira, e sem o idioma materno, isso sería impossível.
    É incrível, más quando eu falo alguna palavra nova em português,eles logo me perguntam o que significa e quando menos espero eles estāo falando também..É incrível.

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    • Que lindo, Iracema. Eu também penso que é tao importante esses lacos afetivos que o idioma nos proporcionam. Se temos a oportunidade, falemos em português. Mas cada pessoa com sua realidade e bora vivendo!
      Obrigada por comentar. Bj.

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