UM CAFÉ COM FLOR DE LINZ, POR FAVOR! (resenha de Nic Cardeal)

A escritora e resenhista Nic Cardeal no atributo da sua generosidade literária , deu-me a honra e a alegria de resenhar o Flor de Linz.
Nossa! Fiquei tão emocionada, pois eu acompanho e admiro muito o trabalho dela como escritora e resenhista no “Escrevo porque sou rascunho” https://www.facebook.com/Niccardealpoesias/. E percebo seu cuidado, seu respeito com o texto, o que para gente que os lê, é um afago no coração.
Muito obrigada, Nic, senti seu abraço através das palavras!
Resenha:
FLOR DE LINZ é um livro bilíngüe (alemão/português), escrito por Danielli Cavalcanti em 2016, com 2ª edição em português publicada em fevereiro/2017.
Danielli vive atualmente em Kolding, na Dinamarca. Esse livro trata de sua experiência de vida em um período de cerca de 10 anos vividos em Linz, na Áustria. Danielli conta a história da personagem principal, Rosa Cipó. A autora, na realidade, exerceu atividade profissional junto a uma ONG de e para migrantes. A ideia de transferir, no livro, seus contatos com migrantes na ONG para o ambiente de uma cafeteria, por meio da personagem Rosa, foi justamente para dar maior sensação de acolhimento às mulheres brasileiras chegadas à cidade, assim como a outros(as) estrangeiros(as) ali residentes ou de passagem temporária. Assim, a tarefa primordial do Café Flor de Linz no livro é a de acolher mulheres brasileiras necessitadas de apoio, de conversa, de solidariedade, de amizade, diante de experiências traumáticas de racismo e sexismo vividas na cidade e/ou no país. Como relata Rubia Salgado no prefácio da obra, “(…) Flor de Linz é um espaço imaginado, um espaço que poderia ser. Um espaço inúmeras vezes planejado entre fantasias e desejos, um espaço que entremeia os sonhos de migrantes brasileiras em Linz. E, provavelmente, também em outras cidades onde personagens com passados e presentes semelhantes se encontrem. No Flor de Linz há tudo aquilo que nos falta na diáspora: tapioca quentinha, cafezinho, feijão e todos outros quitutes nostalgicamente celebrados. Mas é também território de escuta, território de sonhos, de lágrimas, de planos, de aconchego, de solidariedade e de alegria. E embora saudade e nostalgia, samba e brazil kitsch tenham ali lugar reservado e garantido, o Café subverte as fronteiras do exótico e logra conjugar saudade com resistência (…) ” (CAVALCANTI, 2016, pp. 5/6).
Nessa obra pessoas reais são transformadas em personagens cujos codinomes são flores. A personagem principal vai retratando casos de amor, de separação e de dor, de cada uma de suas costumeiras clientes do Café, como uma verdadeira “declaração de direito à felicidade”. Diz a autora que sua intenção era a de comemorar seus 10 anos de residência em Linz por meio da publicação de um livro de ficção, mas com grandes pinceladas de realidade, como uma forma de demonstrar o poder da resistência feminina em terras distantes, “(…) algo que representasse um pouco dessa experiência de pertencimento e não-pertencimento, desse viver sob o manto ou entre a cerca da migração (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 11).
Sua tarefa, tanto real (na ONG, como Danielli), quanto imaginária (no Café Flor de Linz, como Rosa Cipó), era a da escuta. Sim: ouvir era o verbo servido ‘à la carte’, como principal cardápio emocional preparado por Danielli no fictício ambiente da cafeteria austríaca. Ao vivo, em carne e osso, olhos nos olhos, conexão coração: “(…) E quem escuta, presta serviço básico de anjo, estando no momento certo, no lugar certo (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 12). Por certo não deve haver fome de neve em lugares assim, onde o branco caído dos céus parece cobrir os telhados com açúcar de confeiteiro – ali é a alma estrangeira quem passa fome: de palavras, de amizade, de compreensão, de escuta, de solidariedade. Por isso a política do ‘Café de Rosa Cipó’ é a política do corpo presente, sem celulares ou comunicação virtual, mas apenas a palavra dita, ainda que gritada, sussurrada ou em prantos, mas o verbo feito carne, ou mesmo o silêncio falado em olhos d’água. Por isso Rosa questiona: “(…) Tem atmosfera mais excitante que estar vendo gente que se encontre com gente, que toque gente, que beije gente, que seja gente?(…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 14).
O livro é vibrante em todas as notas musicais da partitura humana: um uníssono de poesia, em prosa, na narrativa das dores, dos amores, das esperanças, das chegadas e partidas de pessoas vindas de cá e de lá, nesse mundo assim quase redondo, mas tão descontínuo e longínquo… “(…) Nesta vida de migrante, o retorno nos faz companhia desde a partida: seja pela certeza da volta, pelo medo de que isto aconteça ou até de que não aconteça. Somos verbo transitivo e de ligação. Uma vez estando aqui, queremos estar lá, outra vez estando lá, queremos aqui estar. No vai e vem de sensações – ora maré alta, ora maré baixa – tocamos o barco. E nesse mar de incertezas, imagino como seria se a razão perguntasse ao coração: – Até que porto vale a pena prosseguir viagem? (…)” (CAVALCANTI, 2016, pp. 15/16).
Rosa fala de seus amores, de suas dores, mesmo quando exerce o papel de escutadora de dores alheias: “(…) Todos os dias, renovo meus votos de querer ser amparo, ser encontro, quando uma pessoa se sentir perdida. Eu sei o que é estar sozinha, estando acompanhada. E pior, sentir amor por uma pessoa e perdê-la, por estar, formalmente, ligada a outra (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 25).
Há muitas flores que vão e que vêm, no Flor de Linz. Como Fiore, uma brasileira de Esperança, na Paraíba, freqüentadora do Café, que se delicia com o caldinho de feijão às sextas-feiras, que auxilia migrantes na preparação da documentação para empregos ou cursos profissionalizantes, que divulga casos de anúncios racistas de lojas e empresas, sempre repetindo seu mais nobre mantra: “não passarão”, na tentativa de avisar a comunidade migrante acerca dos mais variados casos de racismo. Rosa a identifica carinhosamente como ‘a menina das dores emolduradas’ porque Fiore costuma emoldurar frases e pendurá-las na parede.
Há muitas flores que vêm e que ficam no coração de Linz, e no coração de Rosa Cipó. Como Açucena, que entendeu em Linz que “(…) nem vale a pena lutar por águas rasas, quando se deseja profundidade (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 36). Como Digitalis Purpurea, a moça que adorava História e que pesquisava acontecimentos ocorridos nos lugares por onde passava. E que contava a Rosa sobre seu passado na Bahia, em Jaguaripe: “(…) Com o rio Jaguaripe foi amor ao primeiro mergulho. Ele tem gosto de lágrima! Assim é o rio perto de não caber mais em si. Ele não se contém de emoção, estando a poucos quilômetros de se encontrar com o mar (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 47). Ou como Edelweis, estrangeira que se casou (por amor!) com o namorado brasileiro Oleandro, em Linz, e foram morar em uma ruela de esquina com o Café Flor de Linz. Neste dia, “(…) o céu vestia seu azul mais cintilante e o sol sorria seu amarelo mais vibrante (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 68).
Flor de Linz, de fato, não é tão somente um pouso para abastecimento alimentar do corpo, na história da autora Danielli. Serve de verdadeiro oásis para corações cansados e almas desesperançadas em lugar distante e de língua desconhecida. Ali se pode falar de dor, de saudade, de tristeza, de desalento e de solidão. Ali se pode receber aconchego, solidariedade, compreensão e pertencimento. Porque “(…) sofrer discriminação dilacera a alma. As feridas anteriores nunca se cicatrizam totalmente e outras tantas formam-se ao seu redor. Respirar dói (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 90).
A autora Danielli também sentiu bem de perto o momento dramático e histórico vivenciado na Europa em 2015: a imensa transição territorial de pessoas que abandonaram seus países em zonas de conflitos, buscando refúgio e proteção em solo europeu. “(…) No final de agosto, um caminhão com 71 corpos foi encontrado numa autovia austríaca e a Áustria sentiu o peso da presença daquelas vidas ausentes. Eram pessoas vindas na maioria da Síria. Morreram asfixiadas, dentro de um caminhão, tentando atravessar a Áustria para chegarem à Alemanha. A tragédia repercutiu internacionalmente (…)” (CAVALCANTI, 2016, p. 109).
Rosa (Danielli) – a Flor de Linz – passou 10 anos dando suporte, acolhimento, distribuindo amor e ternura aos passantes, aos migrantes, aos desesperançados e aos desesperados, com ouvidos sempre abertos, coração sempre presente! Por fim, a personagem Rosa comemora 10 anos do Café Flor de Linz, enquanto a autora Danielli faz sua despedida da cidade e do país. Precisa ir embora da Áustria. Rosa entrega o Café para duas amigas, para que levem seu projeto adiante. No dia seguinte, Danielli segue para Viena, com destino ao Brasil.
Esse livro é sobre imigrar – chegar – entrar. É sobre emigrar – sair – partir. É sobre as vicissitudes humanas em torno das questões das fronteiras humanas. Sobre a necessidade de desfazermos limites em nossos arredores internos e externos: que a Terra seja um só país! Que não necessitemos mais de muros, muralhas, contenções. Que sejamos todos livres. Porque no fundo, no fundo tão profundo, somos todos imigrantes, somos todos emigrantes. De corpos, almas, roupas, sentimentos. De pensamentos, momentos, emoções. Migramos a cada segundo. Nunca somos de nós mesmos os mesmos. Porque somos todos plurais. Nenhum de nós, em absoluto, jamais será singular.
Nic Cardeal
07.06.2018
P.S.:O livro For de Linz está à venda nas livrarias:
A Livraria, em Berlim, Alemanha

Alex Buchhaldung, em Linz, Áustria

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